terça-feira, 31 de março de 2015


UMA IGREJA E SEUS SÍMBOLOS 

A IGREJA é repleta de símbolos, o que permite que sua linguagem seja universal atualizando suas concepções na dinâmica do tempo.  A importância desta simbologia e de suas tradições a mantém coesa, firme e universal a todo instante.  Os símbolos assim como a música e a ritualística toca fundo nossos corações, nossa alma e nos envolve de forma objetiva e subjetiva, transcendendo nossa temporalidade e razão, ela nos envolve nas questões de fé.
Essa transcendência, esse encantamento, esse envolvimento só é possível através de nossa interação com tais símbolos litúrgicos que tocam nossa alma e fortalece nossa fé, nosso contato com o divino.
A Igreja há milênios percebeu a universalidade e comunicação da ritualística com a alma humana e até hoje a música sacra e seus requintes, as pinturas, as imagens, os templos,  enfim a arte sacra em si tem sua função. E esta função ultrapassa o contemplativo, ultrapassa a beleza e a estética, ela transcende tudo isso, ela nos ilumina, nos fala, nos conduz e norteia. Por isso temos os santos, não para terem suas imagens adoradas, mas para nossa contemplação e lembranças de seus feitos e de seus exemplos a serem seguidos.
Quando olhamos para a Madre Dolorosa não estamos a adorar uma imagem, mas sim a contemplar seus olhos  lagrimejantes e o punhal que traspassa seu imaculado coração;  parece que neste instante aquela Pietá consola nossas dores e nos inspira a entender e aceitar nossos sofrimentos.  Quando os artistas do movimento barroco deram a teatralidade a seus templos e a vívida expressão em suas imagens, tornou-se impossível  não nos comover com o sofrimento expresso das imagens da Semana Santa !  São esses símbolos que nos leva a reflexão sobre o sofrimento de Jesus e faz depositarmos nossas dores e aflições naquele momento. Quando repicam os sinos, acende-se o círio pascal e aleluias sobem aos ares, novas esperanças preenchem nossas almas e o júbilo toma conta do nosso ser e renova nossas esperanças no além morte, na glorificação dos justos e a ressurreição. Quando felizes tocam os sinos de Belém e as músicas alegres enchem a igreja na missa do Galo renovamos e fazemos novas alianças num ano vindouro.  Tudo isso é tocado não pela razão ou ciência racional humana, mas pelo subjetivo, pelo encanto, pela mística, pela simbologia que vibra nosso interior e alimenta a centelha divina presente em nós humanos e filhos de um Deus Único.
Essa é a grande sabedoria da Igreja, a imponência de seus templos, que não foram construídos para ostentar, mas para tocar, para falar. Seus santos falam, suas pinturas falam, seus sinos falam, sua música transmite, a Igreja se comunica e faz a ponte entre o Céu e a Terra. A Igreja, mais que um templo é um livro aos homens, e felizes aqueles que têm esse livro sagrado bem ilustrado e que se pronuncia com sua arquitetura, com suas tradições, com seus santos  e com sua liturgia;  a igreja vibra, o templo se comunica a nós. É por isso que os templos foram feitos, e para isso que foram construídos com requintes, é por isso que lá estão os santos, lá está o Corpo de Deus, o nascimento, a morte e a ressurreição.  Sejam suas cores, suas caveiras, seus santos, seus sinos, suas vestes, suas cruzes, seu chão quadriculado,  tudo tem um porquê e percorrer e conhecer esses porquês é  iluminar a alma e entender uma Igreja Viva de um Deus Vivo.
Esses santos, essas manifestações, essa ritualística tem um mesmo denominador comum, existem para o Louvor Supremo de Deus, os santos estão lá por Deus, pela abnegação a Jesus, e exemplificam como se portar na fé cristã, eles indicam o caminho.
Assim nos ensina o grande apóstolo em Coríntios 1 – cap. 13- Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria. E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.
Se tudo isso, toda simbologia, toda pregação não houver amor de nada adianta, e é esse amor que movimenta a igreja, e a procuramos por esse amor puro e purificante, o consolo da nossa alma, as respostas para nossas dúvidas. É esse amor que faz nossas interpretações simbólicas e são esses símbolos que despertam e vibram esse amor, numa perfeita simbiose de fé.
Por isso é que Verônica segue sua via crucis, é por isso que Verônica tem atravessado séculos com seu cântico, tocando nossa alma, nos chamando a reflexão da Semana Santa,  não apenas pelo sofrimento imposto a Jesus e a amargura de sua chorosa Mãe, mas pela identificação nossa com esse momento, nossa identificação de nossas dores com aquele momento revivido, com o luto expresso de Verônica e suas Marias Beus, o findar da Sexta Feira da Paixão e a certeza do nascer do outro dia e a esperança na ressureição e do novo sol em nossas vidas.
O símbolo forte que da quaresma e o sentimento que exerce em todos faz esse período especial, tempo de  meditação, de recolhimento, de reflexão, que inicia-se pelas cinzas a lembrar nossa brevidade na terra e a efemeridade das coisas, ao Domingo de Lázaro com suas chagas ou a Lázaro o ressuscitado vencendo a morte; as nossas andanças pela via sacra, pelas procissões, pelos confessionários, pelas glória do Domingo de Ramos, pela passagem da morte e pela ressurreição; faz deste período um dos mais belos da Igreja. É pela Páscoa do Senhor que se define todo o calendário litúrgico da Igreja.
Ao entrar no templo, perceba que ele é um livro e tem uma mensagem a passar, as imagens estáticas que ali estão tem uma mensagem para você; conheça a história deles e terá um caminho a seguir; entenda a liturgia e os símbolos que vão desde as vestes sacerdotais até as grafias pelos altares e entenderá que tudo tem um motivo e a origem desse motivo é Deus e sua infinita manifestação a desdobrar pelo Universo.


sábado, 1 de novembro de 2014



COMO SE MORRIA EM JOANÓPOLIS


Joanópolis fundada oficialmente em 1878, mas com menção de sua existência como extenso bairro desde 1830, teve seu primeiro cemitério regulamentado somente em maio de 1893, anterior a esta data,  os mortos eram conduzidos até a sede do município (Piracaia).  Podia parecer pouca distância quando pensamos em trilhas ou somente na atual localização da cidade, mas tornava-se dificultoso  quando a morte acontecia em bairros distantes como o Bonfim, Pretos, Sertãozinho, Pinhalzinho e outros.  O Decreto Municipal nº 02 de 1897 regulamentava o cemitério com mais de 40 artigos sobre procedimentos, normas e restrições, entre eles destacam-se os artigos 11 e 12 os quais estipulavam sepultura com dois metros de profundidade em local especial para pessoas falecidas de doenças epidêmicas ou contagiosas. O prazo mínimo para enterramento era de vinte e quatro horas (salvo exceções) e permitia-se ainda  jogar sobre os cadáveres vinagre, cal ou quaisquer outras substancias que facilitassem a decomposição.
Os caixões feitos em tábuas eram privilégios de famílias mais abastadas, bem como o transporte em carroças ou carros de boi; alguns carpinteiros passavam a noite no serrote e martelo confeccionando os ditos caixões, os quais eram forrados e enfeitados pelas mulheres, enquanto isso o corpo inerte aguardava sob uma mesa ou na própria cama. A grande maioria até meados deste século eram conduzidos no chamado bangüê, ou seja, um lençol traspassado por  um taquaruçu e levado nos ombros de dois fortes homens. Quando aparecia  pouca gente para o velório e respectivo enterro, competia ao inspetor de quarteirão convocar sob a força da lei homens para conduzir o corpo. Com a inauguração do cemitério a situação melhorou bem mais, porém o translado nos ombros ainda continuava a  ser penoso. 
A grande maioria morria nas casas, com uma vela acesa nas mãos e rezas ao redor, dando a segurança da luz divina para o novo mundo. Para todo morto sempre existiram bons cristãos, após expirar, o novo defunto deveria ser lavado, penteado e quando homem barba feita na navalha. Para facilitar o banho e a troca de roupas nada melhor do que um bom papo com o mesmo, pois acreditava-se que falando com o morto, ele ficava mais maleável.  Até meados dos anos 40, era comum o uso da mortalha, um pano roxo ou branco  enfeitados com galardoes e despontado nas pontas, nada de nós ou amarras para não prender o espirito. Para ficar com a  boca bem fechada amarrava-se uma tira de pano na mesma a qual deveria ser solta antes do enterro, alguns ficavam de olhos  abertos e nada os faziam fechar, exceto quando “viam” o derradeiro parente ou amigo, assim satisfeitos fechavam os mesmos sozinhos.  O corpo vestido, sob a mesa ou cama recebia flores (dálias, lírios, primaveras e as prediletas hortênsias E melindres).  No decorrer da noite o defunto poderia começar a inchar, a barriga a crescer, nada melhor do que uma chave em cima do peito para impedir que isso ocorresse, as vezes era necessário sacudi-lo um pouco, de leve, para ver se o pescoço estava enrijecido, pois pescoço mole era sinal de que algum da família morreria em breve.  Uma outra crendice no caso de morte matada (homicídio) era colocar uma moeda na boca do falecido, isso impedia  que o assassino conseguisse fugir, porém, existem relatos de almas que decorrido anos, voltaram para pedir que retirassem do cadáver a moeda, a qual impedia seu sereno descanso.
Um bom exemplo destas crenças foi muito bem interpretada em Morte e Vida Severina reapresentada pela Rede Globo, inclusive aparecem os irmãos das almas, convocados ou voluntários que auxiliam a carregar o bangüê, bem como os Cantos de Incelências.  Apesar de muitos destes costumes terem desaparecido, os defuntos ainda passam por vários rituais, simpatias e convenções  (banho, rezas, velas, posição, roupas, etc) para que parta em paz para sua nova morada.
A versão mais confortadora da morte que já ouvi neste mundo caboclo foi sobre morte de crianças, as quais eram vestidas de branco ou até de anjos,  sendo o velório bem curto, com a proibição do choro pelo  falecido, pois as lágrimas podiam molhar as asas dos anjos que vinham buscar o novo companheiro!

Valter Cassalho




sexta-feira, 2 de maio de 2014



A FESTA DE SANTA CRUZ – 03 de maio


Há pouco tempo o mês de maio era considerado um mês especial, era o mês das noivas, das flores das laranjeiras, das festas de casamentos e em especial (até hoje) o mês de Maria. Dentre estas festividades, no mês de céu azul intenso e precursor do inverno, realizavam-se em quase todas as capelas, a Festa de Santa  Cruz.  Dias antes, preparavam-se arcos com taquara, flores naturais e de papel, limpavam as capelas e adornavam-nas caprichosamente para que no dia 03 de maio, realizassem terços, rezas e preces.  Reunia-se o bairro e após a reza partiam para um café com pão, leilão, rojões, comentários e cantorias. As cruzes ficavam recobertas de pequenos enfeites de papel e muitas das vezes eram coroadas com as mais diversas flores e cores.
Nestes locais eram depositadas imagens de santos quebrados, pois não era bom joga-las no lixo ou na água, o  lugar mais apropriado era a Santa Cruz; daí vemos muitas cheias de santos velhos e quebrados até hoje. Neste local também se deixavam esmolas para as almas, principalmente moedas e dinheiro miúdo, nascendo daí a expressão quando estamos com dinheiro amassado ou muito trocado, dizerem dinheiro de santa cruz ou assaltou a santa cruz.
Além de funcionarem como um marco de  referencia de divisas de propriedades, posse e  jurisdição, as mesmas eram utilizadas para se encomendarem as almas na época dos Cânticos de Alerta (Quaresma), para abençoar locais onde ocorreram mortes violentas, dando maior sossego as almas e impedindo que assombrassem os locais.
Desde a década de 70, estes costumes vem desaparecendo pouco a pouco. Um dos vários motivos, deu-se através da modificação do Calendário da Igreja Universal,  que suprimiu o dia 03 de maio em favor do dia 14 de setembro, ou seja, o real dia da Exaltação de Santa Cruz.
Mas, por que o três de maio? A história conta que: Santa Helena, mãe do Imperador Constantino, encontrou a verdadeira cruz de Cristo em Jerusalém e a apresentou (exaltou) aos fiéis em 14 de setembro do ano 335.  No entanto, dado as guerras com os Persas, a Verdadeira Cruz acabou sendo roubada e desapareceu. Somente no reinado do Imperador Heráclito, foi resgatada no ano de 630 e segundo as tradições o próprio Imperador fez questão de levá-la nos ombros desde Tiberíades até Jerusalém, onde foi entregue ao Patriarca Zacarias no dia 03 de maio; nascendo daí grandes festividades pela data.
Com a vinda dos portugueses e a evangelização por parte dos jesuítas, a cruz foi imposta aos índios e arraigou-se por entre os mestiços que mais tarde comporiam os sertões,  aldeias e arraiais. Foram estes que tomaram gosto pelo culto a Santa Curuçá (de acordo com os tupis), ou Santa Curuzu (dos guaranis), sendo comemorada a 03 de maio, com grandes festividades e cantorias, como até hoje se fazem na Aldeia de Carapicuiba.
No Brasil, a Terra do Cruzeiro do Sul, chamado no inicio de Vera Cruz e Santa Cruz, teve estas festividades muito expressivas dentro de sua formação cultural. Joanópolis, teve seu inicio marcado por uma Santa Cruz, contígua a casa de Domingos Fernandes de Almeida (1878), onde realizou-se a primeira festa de São João. No início do século o da Cachoeira dos Pretos, tinha o nome de Santa Cruz do Salto e a capela dentro cemitério era dedicada a Santa Cruz (1893),  sendo substituída somente com a reforma ocorrida em meados  da década  de 50. No entanto, existe do lado de fora do mesmo, junto a antiga estrada que dava acesso a Piracaia, uma capela dedicada a Santa Cruz, que foi reconstruída  por Oscar Bueno de Camargo por volta da década de 60, onde ocorriam grandes festividades em maio. Quando construíram o Largo da Cadeia e  Paço Municipal, erigiu-se um belo Cruzeiro, que infelizmente foi demolido (1979) e nunca mais reconstruído. Por toda a zona rural, ainda espalham-se diversas capelas dedicadas a Santa Cruz  e dezenas de cruzeiros em locais onde ocorreram mortes violentas.

Na última visita do Papa ao Brasil, o presidente de Honra da Comissão Paulista de Folclore, o jornalista Hélio Damante, enviou uma carta pedindo ao santo padre, que se restabelecesse a festa litúrgica da Santa Cruz  em 03 de maio. Enquanto isso não ocorre, deixamos a festa a quem ela pertence, ou seja, ao povo, que olhará saudoso para o alto de qualquer igreja e verá no resplandecente céu uma imponente cruz e se mesmo assim não vislumbrar a cruz dos homens, com certeza, a noite, lá no céu estrelado de maio, verá  o Cruzeiro do Sul, derramando bênçãos eternas sobre o Brasil, a terra de Santa Cruz.

Prof. Valter Cassalho
Comissão Paulista de Folclore



sexta-feira, 10 de janeiro de 2014



MEU SÃO GONÇALO, MEU SÃO GONÇALINHO !

Santinho da intimidade brasileira, que permite a nós mistura de raças, tratar os santos assim, coisa de português, dizem uns, coisa de  caboclo dizem outros. Tanto faz! O que me importa que podemos nos referir ao Santinho assim, na intimidade.
Ô santinho andejo! Por isso gosto de São Gonçalo, num é de parar em altar por toda a vida, ficar lá empoeirado, esperando alguma beata de muito de vez em quando tirar ele com todo respeito e dar uma limpadinha. Ele sai toda hora, gosta de sair, de passear. Ora está num altar, ora está num balainho de taquara enfeitado de fitas e flores de crepom, colorido, garboso e bonito demais.  E lá vai ele, nas mãos de um fiel ou promesseiro, saindo  feliz sacolejando no balaio, chega numa casa é recebido com alegria, pêgo com a mão direita ou ambas as mãos, já ganha beijo e visita todos os cômodos, vai no colo de moça casamenteira, vai na cama de algum doente, passeia e abençoa todo mundo. Mas não pede pouso,  já despede, ganha beijo e sai de novo, nas estradas poeirentas e nas ruas da cidade,  de capa nas costas, chapéu de aba larga, bem trajado e de violinha nas mãos.  Com esse costume e passeador só podia ser violeiro! Anda de lá para cá, ouvindo uma prece aqui, recebendo um pedindo ali, fazendo uma folgança acolá. O santinho é português, mas parece bem brasileiro nessas suas andanças e aventuras pelas casas dos fiéis.
Recebendo o ajutório, a esmola, a reza, a bênção, volta pra casa e descansa uns dias, mas nem esquenta bem o altar já tão com ele nas mãos de novo e lá vai o violeiro, santo cantador, agora mais bonito ainda, num andor, carregado por alegres fiéis, que dão vivas ao seu nome e sua santidade, vai pelos ares, olhando tudo de cima, pomposo e até soberbo as vezes. É recebido pelos outros santos,  para sua festança.  E já sai do andor e está no altar enfeitado de flores e velas com muitos santos convidados  postos sobre  toalha branca, perfumada de flores de todo tipo.  Etá santinho festeiro!
Mal acabou de chegar ganha beijo de todo mundo e vai dançar, passa de mão em mão, passeia nas voltas, vai para lá e para cá, no meio do cheiro de gente suada de tanto dançar, no cheiro da pólvora dos rojões, no bafo do afogado na panela, na fumacinha do café coado na hora. 
É português, mas parece brasileiro! Nem exige muita mesura, nem incensos, roupas, e muita pompa. O negócio dele é estar no meio de todos, no cheiro e sabor do povo, no repique de viola, na dança, na roda, no altar singelo feito por mãos de simples fiéis. Está ele nas mãos de todos, no barulho do bate pé e bate palma, no levantar da poeira.  São Gonçalo não liga para poeira,  nem para silêncio, ele gosta mesmo é do barulho, da alegria, da festa, da viola; de gente contente, que mesmo pedindo tantas graças e milagres, vem feliz falar com seu santinho, falar direto, ao pé do ouvido, na cantoria mesmo.  E ele atende todo mundo. Sua reza dura muitas horas, então há tempo para atender todo mundo, sem pressa, na maior e santa paciência.
Gosto mesmo deste santinho. Olha! É português, mas tem jeitinho brasileiro. Dizem que no Brasil tiraram a batina e envergou a capa e viola para chegar mais fácil ao povo, dançava com todo mundo, e na sua igreja entrava quem quisesse. Entrava  pobre,  entrava  rico, gente boa, gente má, mulheres beatas e outras nem tão santas assim! Enfim, o santinho não fazia distinção, não escolhia nem pela roupa, nem pelo nome, o negócio dele era tocar viola e ensinar o caminho de Deus.  Olha! Dizem que Deus é brasileiro, então São Gonçalo, que é filho de Deus também, pegou esse jeitão, jeito de brasileiro, brincalhão, violeiro,  cantador, festeiro, mas sempre com  muito respeito e devoção a seu Deus.  E desta forma tem atraído muita gente para o reino do Senhor. 

Santinho sabido, há oitocentos anos, já usava da cantoria e dança para ensinar os fiéis, o que tem de padre copiando São Gonçalo  hoje não é brincadeira!!  Aprenderam bem a lição, só espero que usem o dinheiro como meu santinho usava.
Eta santinho que eu gosto! Meu São Gonçalo, meu São Gonçalinho, abençoai esta gente morena do Brasil, esta gente mestiça, que também é portuguesa igual ao senhor, mas é brasileira, e o senhor tem esse jeito de brasileiro, e no Brasil, muita gente canta e dança pro senhor. Então meu Santinho, se o senhor não é de ficar parado no altar, acho que também não é de ficar parado aí no céu, então eu tenho certeza que o senhor sempre acha um tempinho para vir visitar a gente por aqui, nos seus altares, nos balaios, nas tuas festas, e em cada violeiro, rezador ou fiel que faz um pedido pro senhor, por favor, e mais uma vez ROGAI POR NÓS E ABENÇOAI ESTE POVO BRASILEIRO QUE LHE QUER TÃO BEM. !!
Viva meu São Gonçalo !! Meu São Gonçalinho!!!!

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013



O ESPANTALHO
À amiga Rosita Flores 

Hoje não muito usado em nossas plantações, mas num tempo antigo muito presente na roça, os espantalhos espalhavam-se por ai.  E num desses fundos de roça que ouvi o presente “causo”. 
Contam que por um desses cafundós morava um garboso rapaz, descendente dos antigos coronéis e pagava pose de sinhozinho. Filho de família antiga, gente de posses, o rapaz de nome Bento vivia de terninho branco engomado, bonito, simpático e o chamavam de Bentinho.  Morador da casa do grande de um bairro distante era desejado pelas moças casadoiras; porém naquele tempo, essas coisas de amor e paixão, de nada tinham valor, quem decidia com que se casava eram os pais. E assim Bentinho foi prometido em noivado a Jurema, uma bela e educada moça de dezesseis anos; combinado entre as famílias que ambos após o casamento morariam na cidade. 
O tal Bentinho desperta ciúmes dos rapazes e suspiros das moças que por ali passavam ou trabalhavam na fazenda. Eis que poucos dias antes do carnaval, realizou-se as núpcias do casal, com grande festa e alegrias dos pais, e muito ciúmes das mocinhas, em especial de Maria Rita, a bela morena de vinte anos e ainda solteira, que vivia a suspirar pelos cantos da casa e imaginar seu amor com Bentinho. Maria Rita nutria pelo belo moço um amor platônico e triste, vivia a espiar o moço de longe, seguindo-o mesmo em seus banhos de rio. Neste amor impossível recusou casamentos e noivados.
 Bem, mas voltemos a Bentinho. Passado o Carnaval veio a Quaresma, e os moços da fazenda, arteiros como eles só, resolveram dar uma peça no sinhozinho. Chegando a semana santa, roubaram alguma roupas do varal da casa grande e na quinta-feira santa, estavam todos num grande paiol fazendo os tradicionais judas. Fizeram o judas de uma fofoqueira da cidade nhá Bertina, do farmacêutico Leôncio Zeca, que era chato como ele só, do coronel e famoso mão-de-vaca Tico Preto e do engomadinho Bentinho, que ficou na estica de terno branco de linho, chapéu e tudo mais!  Ora,  Maria Rita era filha da nhá Tuca, lavadeira da Casa Grande e comentou o ocorrido do sumiço das roupas do rapaz. Desconfiada Maria Rita cismou algo, pois bem conhecia a esperteza dos meninos da fazenda nesta época de judas. Sorrateiramente na calada da noite  foi até o paiol e logo deu de cara como o judas de Bentinho, e mesmo como judas, bem atochado de capim ela ainda o achou bonito. Neste amor doentio, Maria Rita cheirou o  judas de Bentinho, abraçou o boneco e ficou a imaginar seu grande amor em seus braços.  Como era bem eleve, colocou o judas nas costas e levou na sua casa. Que coisa feia, pensou ela, roubando algo na Sexta-Feira Maior e tendo pensamentos tão mundanos num dia grande desses! Chegou em casa e colocou o boneco em sua cama e dormiu com ele ao seu lado.
Amanheceu o sábado de Aleluia e os bonecos foram para praça, onde foram surrados, enforcados e antes de serem queimados como manda a tradição, foi lido o testamento de Judas, com grande algazarra e risadas dos presentes. No entanto, os rapazes notaram a falta do judas de Bentinho, mas dado tanto farra e tantos judas deixaram de lado o furto do dia anterior.
Após alguns dias e passado o dia de judas, o jeito era dar um destino ao boneco antes que sua mãe se zangasse, a solução foi levar o judas para a roça e finca-lo na terra, ao menos serviria para alguma coisa e não teria o fim do fogo como os outros bonecos.  Apesar de muito repreendia por sua mãe, Maria Rita recusou-se a queimar o judas e todo dia que iam trabalhar na Casa Grande ela avistava o espantalho novo da plantação.
Assim passaram alguns dias e numa noites dessas de lua cheia, houve um baile no terreiro da Casa Grande, festança das boas, sanfoneiro e todo mundo a dançar. E não é que numa hora dessas chega um belo rapaz de terninho branco, chapéu e todo educado, com um sorriso malicioso e hipnotizante. Moço cheiroso, dançador e muito parecido com Bentinho, levando muitos a crer que era algum parente. Sempre desconversando quanto a parentela, só sabiam que era um “moço da cidade”.
Indo embora a certa hora, ainda cedo, mas num bom horário para donzelas, Maria Rita antes de entrar em sua casinha lá no meio do morro, percebeu que seu belo espantalho não estava mais lá, talvez tivesse caído num pé de vento que dera há algumas horas, ou que os moços o pegaram de volta para suas estrepolias.
Dormindo Maria Rita acordou assustada como a ouvir passos ao redor da casa, um barulho de palha a esfregar pela parede, levantou acendeu o lampião e nada viu, enfim adormeceu e sonhou com o belo rapaz do baile. Outro dia cedo ao olhar para plantação, lá estava ele, o espantalho, arrumadinho, bonito, bem alinhado.  Outra noite veio, e o tinhoso a solta, como a tentar as pessoas, Maria Rita deu de chofre com o rapaz na beira da sua casa, quis gritar mas não conseguiu, ficou petrificada pelo susto, e antes que tomasse qualquer atitude foi profundamente beijada pelo rapaz que vira no baile na Casa Grande. Assim sucederam-se esses encontros misteriosos, com o inebriante perfume e o olhar penetrador do rapaz, tão parecido e cheiroso como o grande amor de sua vida, o Bentinho, que agora morava distante dali.
Passaram-se os meses e lá estava o tal espantalho, fincado na terra e que levantava certa curiosidade, pois estava sempre limpo, impecável, conservado, nem o sol e chuva parecia corroer suas roupas ou o enchimento do seu corpo. E foi num desses comentários com as lavadeiras na beira do rio que a velha nhá Sunta, antiga parteira do local, comentou que isso era mau sinal. Que não era coisa que se prestasse fazer um judas e não queimá-lo, ainda mais na Sexta-feira Santa, dia muito grande; pior ainda, usar um judas amaldiçoado como espantalho, que isso poderia provocar o Tinhoso a fazer suas artes por ai.  Cruz Credo !! Todos se benzeram após a fala de nhá Sunta.
Assim correram mais umas semanas, e os encontros furtivos com o “moço da cidade” continuaram, mas agora já dava para perceber algo ! A barriga de Maria Rita estava a crescer e precisou contar a sua mãe, que havia perdido sua virgindade, desonrada a família, com um moço que sequer sabia o nome.  Mãe e filha tentaram esconder por uns meses; proibindo Maria Rita de sair de casa e muitos perceberam a ausência da bela morena, nos bailes, festas e rezas. Assim correu o ano, novas festas, o carnaval e a quaresma de novo e lá estava o espantalho de Bentinho, limpo, alinhado, cheiroso no meio da plantação. Plantaram o milho, o feijão, a abóbora,  que brotaram, cresceram, secaram e o espantalho lá, tão novo como no primeiro dia.
Finda a Quaresma, chegou novamente a semana santa, a barriga de Maria Rita enorme, e o “moço da cidade” perambulando nos bailes do bairro, galanteando as moças, sempre de terno de linho branco, chapéu na cabeça e cheiroso, que aparecia e sumia como por encanto, deixando moças suspirando por aí.  Maria Rita as vezes ainda recebia a visita do seu falso Bentinho, de poucas palavras e muitas malícias.
Enfim chegou a sexta-feira santa, e os moços resolveram fazer novos judas, e foi numa dessas que alguém teve a ideia de pegar o espantalho na velha plantação de milho e devolve-lo a condição de judas e finalmente dar cabo no dito cujo. E lá foram dois rapazes na plantação, na sexta-feira santa, e tentaram, tentaram e tentaram e não conseguiram mover o espantalho fincado na terra. Chamaram mais dois fortes rapazes e nada, resolveram cavar ao redor, e depois de muito esforço conseguiram derrubar o boneco que passou a exalar um cheiro fétido de coisa podre e enxofre. Ficaram meio assustados com isso e procuraram os conselhos de nhá Sunta, que fez uma oração forte sobre o boneco e despejou pinga com arruda sobre o mesmo e atou as mãos do boneco com folha de palma benta.  Levaram então para a cidade e penduraram no poste em frente a Igreja do Arcanjo Miguel.
Desde esse momento Maria Rita entrou em grande tribulação, começaram as dores do parto que vararam a noite e duas parteiras presentes nada resolviam. Amanheceu o sábado de Aleluia e Maria Rita estava um tanto mais calma com poucas contrações. As dez horas na praça da cidade começaram a leitura dos testamentos dos judas, e a criançada começou a descer o pau nos vários bonecos, em especial no espantalho que de uma hora para outra ficou amarelo e envelhecido com forte cheiro de coisa velha. Maria Rita entrou outra vez nas contrações do parto, rolava de dores, gritava, suplicava e nada da criança nascer. Começaram várias orações no quarto; enquanto isso na cidade pauladas no judas e enfim atearam fogo, o boneco estrebuchou na forca, incendiou, balançou, girou e booom !!! Deu um grande estouro e todos ouviram uma gargalhada.  Arrepiados todos se benzeram com o sinal da cruz, mas só restou cinzas do antigo boneco de Bentinho.

Nesta mesma hora Maria Rita deu a luz uma criança branca como um sabugo de milho, os cabelos espetados e avermelhados como de uma espiga, olhos grandes e fogosos, que logo foi entregue a avó, pois Maria Rita estava desfalecida pelo difícil parto.  Dias depois refeita e com sua criança nos braços, Maria Rita soube do fim dado ao seu espantalho. Coincidência ou não, o tal “moço da cidade” sumiu das festas, dos bailes e do bairro.
Maria Rita, também sumiu da vida social, ficando somente com seu filho de cabelos vermelhos e branquelo como sabugo, apenas ouvindo nas noites enluaradas o barulho do raspar de palha de milho nas paredes de sua casa. 
Assim foi....
Valter Cassalho - Dezembro/2013